O terreno mede 400 metros quadrados e ficava abandonado há pelo menos oito anos. Entulho, mato alto, às vezes moradores de rua. Hoje é a Horta do Torrões — e toda quinta-feira, 40 famílias recebem uma cesta com o que colheram na semana.

A ideia veio de Dona Francisca, 67, aposentada que mora em frente ao lote. "Eu olhava aquele terreno e pensava: que desperdício", conta. Em 2024, reuniu cinco vizinhas e pediu autorização ao dono — um herdeiro que mora em São Paulo e não usava o terreno. Ele assinou um contrato de comodato por dois anos, renovável.

Como funciona a divisão

Cada família participante trabalha duas horas por semana na horta. Não há dinheiro envolvido — só trabalho e colheita proporcional. Quem não pode trabalhar por motivo de saúde pode contribuir de outras formas: cuidar das crianças durante o mutirão, levar ferramentas, fazer a lista de distribuição.

Um agrônomo voluntário da UFPE visita uma vez por mês e orienta sobre pragas e rotação de culturas. A prefeitura do Recife doou mudas iniciais através de um programa de agricultura urbana.

Minha filha comeu alface pela primeira vez na vida aqui. Antes era só arroz, feijão e ovo.

Limitações honestas

A horta não resolve a fome do bairro — são 40 famílias numa região com milhares de moradores. O contrato de comodato expira em 2026 e o dono pode não renovar. E no verão, a produção cai por causa do calor intenso.

Mas para quem participa, o impacto é visível. Menos gasto no mercado, mais variedade na mesa, crianças aprendendo de onde vem a comida. "Não é solução mágica", diz Dona Francisca. "É o que a gente conseguiu fazer com o que tinha."

Atualizado em Jun 8, 2026.