Na manhã do último sábado de maio, a praça Dona Rosália, no Grajaú, estava diferente. Não era festa de bairro nem feira de artesanato — era o 14º Encontro de Trocas do Grajaú, e cerca de 80 pessoas circulavam entre mesas cobertas com roupas, livros, brinquedos, panelas e até uma bicicleta que alguém não usava mais.
Cláudia Mendes, 42, professora de história, foi uma das organizadoras. "A gente não queria criar um evento grande", conta ela, ajustando a etiqueta de tamanho num casaco de lã. "Queríamos resolver um problema simples: muita coisa boa indo pro lixo porque ninguém sabia que o vizinho precisava."
Como tudo começou
Em março de 2025, Cláudia postou num grupo de WhatsApp do condomínio perguntando se alguém queria trocar roupas de criança. Cinco famílias responderam. Marcaram encontro na garagem de um morador. Ninguém levou dinheiro — só o que não usava mais e uma lista mental do que procurava.
O grupo gostou. Repetiu no mês seguinte, desta vez na calçada, porque não cabia mais na garagem. Um vizinho trouxe café. Outro, bolo. Alguém comentou que fazia tempo que não conhecia tanta gente do prédio.
Antes eu jogava fora sem pensar duas vezes. Agora pergunto no grupo se alguém quer antes de descartar.
Em agosto, o síndico de um prédio vizinho ofereceu a praça. A prefeitura não cobrou taxa porque o evento não envolve venda — apenas permuta entre moradores. A única regra: nada em más condições, nada que não usaria você mesmo.
Números que importam
Não há estudo acadêmico sobre o impacto da feira, mas os organizadores fazem contagem informal. No último encontro, estimam que cerca de 300 itens mudaram de dono. Um catador parceiro recolhe o que sobra e encaminha para cooperativa — nada vai para aterro se puder ser reutilizado.
Donizete Silva, que mora no Grajaú há 30 anos, notou diferença no lixo comum do prédio. "Antes enchia duas vezes por semana. Agora uma vez e meia", diz. Não dá para atribuir só à feira — reciclagem melhorou também —, mas ele acredita que o hábito de "perguntar antes de jogar" se espalhou.
O que não é perfeito
A feira depende de voluntários. Cláudia e mais três pessoas montam e desmontam tudo. Quando chove, cancelam — não há estrutura coberta suficiente. E nem todo mundo do bairro participa: alguns moradores mais velhos acham constrangedor "ficar catando roupa de outro".
Mas para quem participa, o efeito vai além do consumo. "Minha filha fez amizade com a filha de uma vizinha que mora no quinto andar", conta Roberto Alves, pai de primeira viagem. "A gente se via no elevador e fingia que não se conhecia. Agora tomam café juntos."
Quer replicar?
Os organizadores publicaram um guia simples de cinco páginas — sem cobrança — com passos básicos: comece pequeno, defina regras claras, escolha local acessível, não aceite dinheiro. O documento está disponível por e-mail ([email protected]).
Não é modelo para todos os bairros. Mas mostra que mudança de hábito não precisa esperar política pública nem app milionário. Às vezes, basta uma pergunta no grupo do condomínio.
Atualizado em Jun 11, 2026: corrigido número do encontro (14º, não 13º).